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Teatralidades #10

O dia em que tudo mudou...
                                                        Éramos sete.
Sete. Sim sete!
                                                        Mais um.
                                                        Juntos ali no palco a viajar uma vez mais n'A Gravura.
Abro os braços... É necessário...
                                                        Respiro o ar da serra, aquele ar que no início me obrigou a tirar a máscara!
É a máscara!
O que é que queres dizer? Não me digas. Quero que me mostres!
Isto é público não é?
                                                        Sou livre para criar, inventar, ocupar e
desocupar o espaço.
Deixo-me cair em tentação
                                                        e arrisco em mais uma viagem? Ou fico por aqui?...
Do you want to stay?
Vem! Somos tão felizes!



Amazonas, Cavaleiros, S. J. e G. grata por tantas partilhas!

Teatralidades #8

Os dias tem sido recheados de sol, de amigos e essencialmente de teatro.
Ensaios e mais ensaios. A estreia está quase aí. O pânico regressa. Apetece fugir. Apetece ficar. Apetece dizer o que mexe cá dentro. Terei coisas para dizer?
Estranho este caminho de ser com os outros, de criar, de existir.
Há umas semanas fui à Ilustrarte (não se esqueçam - acaba este fim de semana). E nesta imagem da italiana Elisa Talentino vi-me retratada neste meu percurso no palco.

Nem sempre quis vê-lo crescer dentro de mim. Oiço demasiados pássaros reais a dizerem-me que o caminho para onde ir é outro. Fecho os olhos, deixo-me criar raízes, e o meu músculo maior desperta numa cadência floral. Há outros que crescem também. Não estou sozinha. E é por isso que esta viagem se torna ainda mais bonita. Como forma de agradecimento decidi decorar com uma frase do "nosso texto" (A Gravura, de Irene Lisboa) uma caneca para oferecer a cada um.  Para que um chá ou café nos faça lembrar que a realidade às vezes deve ser substituída pelo sonho, e fomos/somos tão felizes quando isso acontece.
(ver imagem das canecas)

Teatralidades #7

A Gravura
E o sonho com uma gravura que havia, muito do meu gosto?
Sonhei que aquilo tudo era real: vi-a animar-se, mexerem-se as figuras...
Nisto abria-se o portão. Por uma alameda abaixo vinham dois cavaleiros e uma amazona. Ela falava e ria-se e até voltava a cara para trás. Procurava com os olhos um belo cavaleiro, *desirmanado do grupo, que montava um cavalo bravio. Também havia mais cavaleiros e amazonas, que se não distinguiam lá muito bem.
Mas tudo aquilo era bonito, era elegante.
Saíram todos do portão, finalmente, e até uma das damas, com a ideia que teve de arrancar um tronquinho de hera, ia caindo do cavalo abaixo.
Deixei de ouvir o trupe dos cavalos e as vozes e vi-me sozinha. Só, só de todo! No meio do campo. Fazia um luar divino. E todo o meu desgosto era de não ser fidalga, de não pertencer também à cavalgada.
Pus-me a andar de um lado para o outro e a falar só. Porque não tinha eu ido com eles? Com eles é que eu devia ter ido! À noite vestiria um fato de baile...
Olhei para o chão, que me pareceu todo malhado. Eu não devia pisar nenhuma daquelas malhas. Eram de luar líquido. Devia saltar por cima delas, e era o que fazia. Dava cada salto! Cheguei a saltar de árvore para árvore. De cima de uma delas até descobri um salão onde as fidalgas andavam a dançar.
Lá lá lá...lá lá lá...lá lá lá...Que valsa tão doce e tão agradável! Conhecia-a tão bem!
Eles, de calção de seda e de meia alta, elas, de cauda...
Deixem-me dançar também, dizia eu, sem que ninguém me pudesse ouvir. Por fim agarrei-me a uma árvore e pus-me a andar à roda.
Mas que vergonha, que vergonha! Descobriram-me!
Nisto acordei.
Irene Lisboa

Teatralidades #6

Demorei um segundo a decidir entrar e talvez outro segundo a decidir sair.
Despeço-me da Alice, sabendo que secretamente vive, pensa e sonha comigo. Sabendo que se debate porque quer ter voz, mas eu não consigo emprestar-lhe o corpo. Viverá num espetáculo imaginário que será apresentado apenas na minha cabeça. Conseguirei ser feliz assim?
E vem-me sempre à memória: Pode alguém ser quem não é? Pode alguém ser quem não é? Pode alguém ser quem não é?
Gostava de ser mais sensível ao mundo… gostava de saber o que fazer com todas as emoções registadas na pele. Gostava de descobrir por que razão me sinto tantas vezes claustrofóbica de mim mesma…
Talvez um dia o desespero se transforme em coragem, talvez... e só talvez, não doa tanto crescer.

Encontro agora novos papéis... Viverei o espetáculo de outra forma.

Teatralidades #4

Não conheço este puzzle, não encaixo, fecho os olhos: sou, abro os olhos: não quero ser.
Sou carta de outro baralho, não sirvo aqui. Não sei corresponder porque não há expectativas, não sei existir fora de mim... não sei!
As pálpebras ardem com o sal. Quero fugir!
O principal indicador é quando perguntam: como é que correu? E o sorriso não chega, e a conversa não flui, e as lágrimas correm como para criar um rio a caminho da foz.
Os muros são demasiado grandes, o medo de mim mesma ainda maior.

Aaaaah...

Teatralidades #3

Já gastámos as plavras pela rua, meu amor
e o que ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos
gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.
Meto as mãos nas alguiberas
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava, porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
...
Quando agora digo: meu amor...,
já não se passa absolutamente nada.

(adaptação de Adeus, de Eugénio de Andrade)

Teatralidades #2

"A Laurie Anderson conta a história do homem que foi detido pela polícia do aeroporto por transportar uma bomba.
O homem disse que não pensava detoná-la, que o fazia por questões de segurança, porque era estatisticamente improvável duas bombas no mesmo avião.
Eu fui detido por causa do meu coração. Eu não pensava detoná-lo, era só por uma questão de segurança. dois corações nunca se encontram.
Quem poderia prever que também tu pensasses que era estatisticamente improvável dois corações num único voo e também, por questões de segurança, sem pensares detonar o teu seres detida. E em terra ficarmos os dois, desarmados, inseguros e estatisticamente improváveis."

Hapiness is a warm gun de Nuno Artur Silva, in 365 - Os primeiros anos


À M., inspiração constante, por me deixares uma e outra vez ser vítima da nossa amizade.

Teatralidades

Cheguei...
Cheguei mais serena do que alguma vez pensei que iria estar.
Cheguei onde nunca sonhei.
Cheguei a um lugar de constantes partidas de mim.
Cheguei para deixar partir o conforto.
Cheguei aqui pela inspiração de uma pessoa bonita.
Cheguei para abraçar a liberdade de existir.
Cheguei emocionada e confusa.
Cheguei!